segunda-feira, dezembro 12, 2005

As cartas que escrevemos


Ao longo da vida escrevemos cartas.
Muitas.
Muitas mais do que nos lembramos.
Escrevemos cartas com o pensamento e que só nele ficam e habitam.
Escrevemo-las com símbolos outros e palavras.
No papel. Ou em qualquer outro material onde possam ser impressas.
Impressos os símbolos.
Telas, tecido, madeira, pedras, areia, cal, paredes, almas....e no vento.
Escrevemos muitas cartas no vento, nos ventos...
Todas têm destinatário fixo, determinado. Que à escrita nos levou.
A umas mandamo-las, outras não.
Guardamo-las, ou rasgamo-las.
Podemos ainda queimá-las...
As que enviamos e chegam, a quem devidas, podem ou não ser lidas.
Podem ser lidas mas não compreendidas...
Podem ser compreendidas e o momento ter passado porque a compreensão lhes foi anterior.
A maioria escrevemo-las no pensamento.
Com o pensamento.
E ficam a ecoar em nós.

Bandos loucos de aves soltas turbilhonando as almas....o ser.

Hoje a propósito de todas as nossas "cartas" ofereço-vos este belo poema de Ruy Ventura.

escrevo-te cartas
que nunca irás receber
a morada desaparece
sempre que tentamos encontrar
não uma porta, mas uma casa inteira.
desligo tudo dentro deste quarto.
ouço, incompleto, - com a janela
entreaberta ao fresco da noite -
cada pequeno ruído,
como se fosse um código para nos entendermos.

Ruy Ventura

domingo, dezembro 11, 2005

Ser do contra

Hoje dedico os meus posts à poesia de Jorge Castro, entre nós, neste mundo de convívio tecido entre a palavra e a imagem, sem a presença física, conhecido como ORCA do Sete Mares que há pouco tempo publicou o livro Contra a Corrente.

Ser do contra

E ao contrário de repente

Ser do alto mar na terra

Impertinente

Ser do ar no chão

e consistente

Nada fácil

Viver-se contra a corrente

sábado, dezembro 10, 2005

Olhares interiores e exteriores


No tijolo azul e no rendilhado do arbusto a casa abre o olhar ao exterior.

Ilumina-se e veste-se do oiro do poente.

Na envolvência labiríntica dos troncos isola-se, fecha-se, individualiza-se.

Única e inexpugnável na permanência do ser que se afirma.




P.S - porque hoje é sábado deixei aqui o meu olhar político à vossa espera.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Para lá dos limites


Já. Já se acabaram os limites.
As palavras deixaram os cem por cento de forma.
Esgotaram-se as penumbras dos ângulos forçados
e rebentou-se a máscara dos mistérios falsos.
*
Estamos num mar imenso de estrutura una.
No pântano milenário
que se alarga e alarga como um polvo incansável.
Dentro do lodo e impermeáveis,
em plena realização das maiores aspirações do momento e de sempre.
*
Já. Já se acabou o sacrifício inútil e sem norte!
Já se rompeu a membrana das vontades fingidas
(traída em tudo a condição forçada de fantoches)!
*
É o instante do início.
O sangue encontra-se em cachão
e salta.
O riso não tem mais oposições
e estala.
Abrem-se os braços para o primeiro voo.
Vamos:
Já se acabaram os limites!
*
Mário Dionísio

terça-feira, dezembro 06, 2005

Incompatibilidades no mundo animal? ONDE???


NAIROBI (AFP) - Um filhote de hipopótamo que sobreviveu ao tsunami na costa do Kenya formou um estranho vínculo com uma tartaruga fêmea gigante,

centenária, na cidade portuária de Mombassa. O hipopótamo órfão, com menos de um ano e pesando cerca de 300 kg,
adoptou a tartaruga centenária como mãe, e ela parece estar bem feliz no seu papel de mãe adoptiva.
Os dois nadam, comem e dormem juntos





Incompatibilidades? diferenças? cor de pele, de pelo, de carapaça, de espécie?

Haverá aqui alguma lição para nós, humanos?

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Última arma biológica


Não sei ao certo se ria ou....,
- ou o quê, maria?

- Olha, sei lá!

quem é que "gripou" primeiro?

O homem ,ou as galinhas?



sábado, dezembro 03, 2005

A arte de criar ilhas de quietude


Ao ler a citação, que transcrevo, pensei e penso sempre numa das "casas virtuais" que visito.
De facto, não uma, mas várias que esta
Obreira da Quietude edifica, fio a fio, e com ternura nos oferta.

« Ensina-me a arte de criar
ilhas de quietude,
onde eu possa absorver
a beleza das coisas
de todos os dias:
nuvens, árvores,
um trecho de música....»
*
*
Marion Stroud

*
*
É certo que também se encontra, ou eu a encontro, esta arte, noutras casas, mas não com a frequência, presença viva com que nelas-estas ocorre.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Palavras do contra


Estas são palavras do contra porque a nossa cultura ocidental chama, indiscriminadamente, preguiça, coisa má e feia, ao acto de parar, deixar de fazer algo que seja economicamente considerado útil.
Quando, parar é uma necessidade do ser humano.
Parar e absorver a beleza, respirar e religar-se ao mundo, à natureza.
Pessoalmente sempre "parei". Volta e meia páro. Se o não fizer afogo-me, morro sufocada.
Necessito sentir o vento, molhar-me na chuva e nela caminhar sem destino, olhar a lua e as estrelas, parar para ver o pôr-do-sol e o nascer.
Parar a ouvir o diálogo do mar, dos amantes, o riso das crianças, o sussuro das árvores..., o som da água correndo solta e ciciando encantamentos...Parar para me ouvir.

*
«O trabalho nem sempre é necessário ao homem. Existem coisas como a sagrada ociosidade, cuja cultura é, agora, perigosamente negligenciada.»
George MacDonald (1824-1905)
*
«Se fores capaz de passar uma tarde perfeitamente inútil de uma forma perfeitamente inútil, aprendeste a viver.»
Lin Yutang (1895- 1976)
*
P.S -Agora tenho estado meio parada, mas por razões de saude.Porque o meu corpo se queixa e recusa agir, até escrever ou ler. Não tarda estou bem. Obrigada pela vossa companhia. Navegar por aqui, neste universo de imagens, sons e letras é uma outra forma de parar. Um tempo só nossso. De leituras e cumplicidades.